A importância da natureza para o futuro da tecnologia

13 de Outubro de 2021

Nenhum ser vivo existe à toa na natureza. Todos carregam uma função essencial para o funcionamento do ecossistema a que pertencem e, por consequência, do planeta em si. Esta dinâmica possibilita evolução e subsistência de uma imensa diversidade de espécies animais e vegetais durante um espaço de tempo muito maior que a existência humana. Por esta razão, a natureza acumula um conhecimento sobre adaptação, cooperação, sustentabilidade e eficiência de bilhões de anos, o que representa uma gigantesca base de dados. Justamente com base no reconhecimento desta sabedoria é que os estudos de biomimética se sustentam.  

Tal ciência parte do princípio de que a natureza pensou primeiro que o homem em soluções para diversos problemas da humanidade que abrangem desde questões de engenharia e tecnologia a economia e medicina. “Não somos os primeiros a processar a celulose. Não somos os primeiros a fazer papel. Não somos os primeiros a tentar otimizar espaços compactos, ou à prova d'água, ou a tentar aquecer e resfriar uma estrutura”, ressalta Janine Benyus, bióloga co-fundadora da consultoria Biomimicry 3.8, em sua palestra ao Ted Talks. Sendo assim, ao buscar resoluções para problemas complexos, ao invés de simplesmente se perguntar: “Como posso solucionar isto?”, a cientista explica que as pessoas envolvidas com a biomimética se perguntam: “Como a natureza resolveria isto?”. 

Além de já ter pensado primeiro, Leonardo Da Vinci, em seu livro “ Anotações de Da Vinci por Ele Mesmo”, defende que  o meio ambiente  pensou estas soluções melhor do que o homem seria capaz de pensar. “A genialidade do homem faz várias invenções, abrangendo com vários instrumentos o único e mesmo fim, mas nunca descobrirá uma invenção mais bela, mais econômica ou mais direta que a da natureza, pois nela nada falta e nada é supérfluo”, diz o polímata. 

De fato, os organismos pertencentes à natureza são capazes de trabalharem de modo cooperativo, adaptarem sua forma à sua função, otimizar os recursos naturais e estarem alinhados aos princípios da economia circular. Esta última explicita a diferença entre o modo de produção dos humanos em comparação ao resto dos seres vivos. Enquanto a economia linear —base dos três setores econômicos — se apoia na extração de recursos, na sua transformação e no seu descarte; o modelo circular desvincula o crescimento econômico do uso de recursos finitos e promove a reciclagem e o uso de energias renováveis. 

Compreendendo, então, que o meio  ambiente representa uma valiosa fonte de inspiração, a biomimética busca entender profundamente os mecanismos do funcionamento da natureza e sua relação com seu design para tentar reproduzi-los. Tal esforço tem sido utilizado por vários campos de estudo: química, engenharia, física, biologia, medicina, agricultura, transportes, arquitetura, o que torna a biomimética uma área multidisciplinar. O resultado deste olhar voltado para a natureza está mais próximo da nossa realidade do que nos damos conta. 

 

A biomimética que nos rodeia

Uma das aplicações mais antigas e mais corriqueiras é o velcro. O tecido foi criado em meados da década de 1940 pelo engenheiro eletrônico suíço George de Mestral. Intrigado com a capacidade dos carrapichos se grudarem com tanta aderência na sua roupa e no pelo do seu cachorro, o engenheiro resolveu analisá-los em um microscópio. O que descobriu foi que a semente era dotada de diversos filamentos entrelaçados com pequenos ganchos nas pontas. Inspirado nos carrapichos, então, de Mestral desenvolveu o velcro. 

Outro exemplo de aplicação da biomimética que faz parte da nossa realidade há décadas é o avião. Os primeiros esboços sobre a possibilidade do homem voar foram realizados por Leonardo Da Vinci, entre o século XV e XVI. Fascinado pela natureza, o reconhecido pintor renascentista estudou ao longo de toda sua vida a matemática por trás do voo dos pássaros. Deste estudo, foram produzidas mais de uma centena de desenhos descrevendo suas teorias sobre aerodinâmica, sendo a mais eminente o Códice sobre o voo dos pássaros. Nesta obra, Da Vinci realiza uma análise do voo das aves e propõe técnicas para aplicação em máquinas, as quais foram utilizadas como base ao longo de toda a história da aviação até a criação do primeiro avião a voar com êxito no século XX. 

A biomimética não somente inspirou a criação de tecnologias como também na adaptação de estruturas visando a adoção de uma economia circular, baseada na otimização de recursos e na eficiência energética. Neste sentido, não faltam exemplos. O edifício comercial Eastgate Centre, localizado em Zimbabwe, foi projetado para ter um sistema de ventilação totalmente natural. Inspirada no formato de cupinzeiros, sua estrutura permite a manutenção da temperatura ao longo de todo o ano, além de possibilitar uma significativa economia no consumo de eletricidade. Outra espécie que serviu de inspiração para o planejamento de sistemas de ventilação natural foi o cão de pradaria. Nativo da América do Norte, este roedor constrói suas tocas embaixo da terra, porém com entradas e saídas de ar, o que possibilita que o espaço interno permaneça sempre ventilado. Tal estratégia foi adotada no projeto do Votu Hotel, localizado na Praia dos Algodões, no sul da Bahia. 

 

O futuro está na natureza

Diante do contexto de evolução do aquecimento global, produção de bens de consumo em massa, elevados níveis de desperdício e descarte, exploração desmedida dos recursos naturais, alta dependência de combustíveis fósseis, a biomimética traz uma alternativa sustentável de produção e crescimento econômico. Por esta razão, Janine Benyus ressalta que é preciso se reconectar com a natureza. “Nós estamos numa muito longa linha de organismos que vieram para este planeta, por isso devemos nos perguntar: ‘Como podemos viver aqui graciosamente a longo prazo?’ e ‘Como podemos fazer o que a natureza aprendeu a fazer?’, ou seja, criar condições conducentes à vida”, propõe. 

 

 

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