As novas aplicações de Inteligência Artificial sob o ponto de vista de especialistas

25 de Março de 2021

Cada vez mais presente na vida cotidiana, os algoritmos são capazes de gerar impactos altamente relevantes na sociedade contemporânea

Presente desde nas questões mais triviais do cotidiano até na resolução de problemas científicos complexos, o algoritmo compõe um elemento essencial na vida contemporânea. Com ele é possível preparar um bolo, dirigir, lavar roupas, mas também reproduzir a primeira imagem de um buraco negro e predizer a estrutura de proteínas a partir de suas sequências de aminoácidos. Em seu sentido amplo, esse conceito matemático e computacional pode ser definido como um conjunto de instruções lógicas, que levam à solução de um problema. Ou seja, uma máquina ou até mesmo uma pessoa recebe essas instruções e a partir delas consegue executar determinados comandos e procedimentos que gerará um resultado.

Com o desenvolvimento tecnológico cada vez mais avançado na área da computação, o uso de algoritmos não se limitou ao recebimento e execução de orientações. Hoje, computadores, robôs ou outros dispositivos conseguem aprender por si mesmos e inclusive se automodificar. Isso se deve às técnicas de Inteligência Artificial (IA). Atualmente, a mais difundida delas se denomina Aprendizado de Máquina (Machine Learning). Por meio desta abordagem, o algoritmo recebe um treinamento com base em uma grande quantidade de dados, os quais permitem a execução de uma tarefa específica com precisão. Outra técnica de IA se chama Aprendizado Profundo (Deep Learning). Desenvolvido com base na estrutura biológica do cérebro humano, esse subcampo da IA utiliza redes neurais artificiais (Artificial Neural Networks — ANNs) compostas por “neurônios” que possuem diversas camadas responsáveis por aprender diferentes recursos e que se conectam com outros neurônios. A professora do Instituto de Informática da UFRGS, especialista em IA, e coordenadora da Cátedra UNESCO em Tecnologias de Comunicação e Informação na Educação, Rosa Maria Vicari explica que as combinações de resultados decorrentes desta estrutura podem ocorrer de forma multidimensional. Devido a tamanha complexidade, a professora afirma que falta transparência nos processos deste tipo de modelo. “É difícil para uma única pessoa dizer por quê determinado algoritmo desta natureza chegou a um resultado. Também é difícil de se prever totalmente o que o algoritmo poderá fazer com dados diferentes daqueles utilizados para o seu treinamento, ao longo do tempo”, explica.

Utilizando estas técnicas, tem se trabalhado para que as máquinas consigam cada vez mais executar habilidades características da inteligência humana. Como exemplo de algumas destas tarefas, podemos citar o planejamento, a compreensão de linguagens orais ou escritas, o reconhecimento de objetos e sons, a identificação de padrões, a adaptação, o raciocínio, o reconhecimento de emoções, a solução de problemas e a tomada de decisão.

Na análise de Rosa, a combinação de algoritmos cada vez mais sofisticados, a grande quantidade de dados disponíveis e o poder de computação que cada dia fica mais barato estão tornando mais amplas as aplicações da IA em muitas áreas. Esta é a experiência de Rodrigo Dalla Vecchia, professor do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da UFRGS e especialista em modelagem matemática, big data Internet of Things. O matemático já utilizou os algoritmos de IA para os mais diversos setores econômicos e sociais. De acordo com a experiência do professor, a indústria utiliza menos de 1% dos seus dados. “O que acontece, então, é que muitas decisões são tomadas com muito poucos dados. Assim, quando eles são analisados, se consegue resultados altamente impactantes. Com isso, é possível aumentar a eficiência ainda que com a mesma capacidade operacional”, relata. Outra aplicação que Rodrigo realiza está relacionada ao varejo e às estratégias utilizadas para realizar promoções. Por meio do cruzamento de dados e métricas de diversos tipos, o matemático consegue obter insights relevantes para o sucesso de uma promoção. “É possível entender o impacto da temperatura, da chuva e, até mesmo, da boa classificação de um time de futebol”, exemplifica. Rodrigo analisa que houve uma mudança em relação ao valor que se dá aos dados, em comparação a quinze anos atrás: “Antes, a obtenção de dados e informação era o que se valorizava. Hoje, o valor está em o que fazer com esse conjunto de dados”. Por isso que os algoritmos de IA e a modelagem matemática se tornaram tão essenciais.

Apesar dos benefícios sociais e econômicos que estas tecnologias proporcionam, ainda há muito o que avançar em termos de uso ético dessas técnicas. Frederico Maciel, engenheiro físico e generalista especializado em modelização matemática de sistemas complexos e co-fundador da Aprix, explica: “Dependendo de como esses sistemas são projetados e utilizados, podem servir como ferramenta para criar ou reforçar discriminações, ou agir de forma ilícita sem serem explicitamente programados para isso”. A difusão de fake news representa um exemplo recente deste uso antiético. Nesse caso, a inteligência artificial não só é utilizada para escrever as notícias falsas como também para identificar perfis de usuários em redes sociais suscetíveis a difundir elas. A engenheira de Machine Learning da Aprix Amanda Goldani descreve como funciona o processo de fomentação de fake news através das redes sociais: “As publicações que aparecem no feed de um usuário, em geral, são organizadas com base no que vai gerar maior engajamento, porque os algoritmos por trás disso são muito eficientes em identificar o perfil de cada usuário”. Como recomendação para entender melhor sobre a dinâmica dos algoritmos e os impactos gerados na sociedade, Amanda menciona o documentário “O Dilema das Redes”, da Netflix. Rosa complementa que além de existirem produtos da inteligência artificial capazes de detectar o estado afetivo e cognitivo dos humanos que os utilizam, eles também conseguem atuar para modificá-los. “A IA não é neutra. Ela reflete os valores da sociedade que a produziu”, conclui a professora. Por outro lado, Rosa defende que apesar de não ser uma tarefa simples a remoção de viés e preconceitos, existem alternativas para tornar a IA mais confiável para os humanos. “Se um algoritmo for simples e não sigiloso, então haverá maiores possibilidades de que as suas decisões possam ser explicáveis, compreendidas e mais justas. O mesmo ocorre em relação aos dados utilizados para o seu treinamento. Se os dados forem de domínio público, é mais fácil de reproduzir o treinamento, o que ajuda a determinar se um resultado é confiável”, expõe. Ponderando sobre a questão antiética do uso de IA, Rodrigo afirma que da mesma maneira que existe um lado negativo, também existe um positivo. “Um exemplo é o Operação Serenata de Amor, criador da robô Rosie, a qual avalia os gastos públicos e indica despesas não adequadas dos parlamentares e senadores”, exemplifica.

Questionado sobre os limites do uso destas tecnologias, o professor acredita estar no campo da imaginação e na capacidade computacional. Em adição, Frederico apresenta outros limites do uso da IA. “Ainda não conseguimos utilizar algoritmos que resolvam sozinhos questões abertas de matemática, física ou química, por exemplo, pois por enquanto só conseguimos criar sistemas com inteligência específica. Então, quase todo o trabalho de pesquisa permanece reservado à atividade humana”, elucida. Além disso, o engenheiro físico e generalista afirma que existem outros problemas que, ou por não serem bem definidos ou por demandarem muita interação com um meio externo, apresentam dificuldades para serem substituídos por inteligência artificial. Como exemplo ele cita serviços de corte de cabelo e pintura de parede. Apesar da longa trajetória que se tem pela frente na área de IA, Frederico é otimista em relação às transformações que a tecnologia gera na sociedade.“O principal impacto que vejo é um aumento expressivo da produtividade nas empresas, automatizando e melhorando processos” defende e adiciona: “Também teremos um grande desafio em criar novos empregos para as funções desocupadas. Entretanto, vejo que se manejarmos bem essa transformação, temos potencial para melhorar muito a qualidade de vida da população”.

 


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