Entenda o Esalq, índice que norteia o mercado de etanol brasileiro

13 de Abril de 2022

Foto: Pixabay

O município de Paulínia, no interior do estado de São Paulo e a 119 km da capital homônima, tem um papel central no mercado do etanol brasileiro. Isso porque as negociações do combustível efetuadas na cidade são a base para o Indicador Diário do Etanol Hidratado, que dá suporte aos contratos negociados na B3 — também chamado de Indicador Diário Paulínia. O principal dado para compreender o comportamento do Etanol no mercado brasileiro é elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP).

Apesar de ter Paulínia como referência, esse é o único indicador elaborado pelo Cepea que compreende todo o território nacional, pois inclui o custo do frete de cada unidade que leva produtos até Paulínia, mais o preço na usina. “O mercado passa a ter uma confiança maior no indicador porque ele passa a ter mais previsibilidade, ou seja, aquela média representa bem os preços no mercado”, pontua Mirian Bacchi, professora da Esalq/USP responsável pela elaboração dos indicadores.

 

"A universidade tem interesse que os mercados sejam eficientes e essas informações de mercado acabam produzindo eficiência”

— Mirian Bacchi

 

Bacchi demonstra que esse dado também pode auxiliar na decisão sobre o preço dos combustíveis revendidos pelo posto. “É certo que, se subir o preço na usina, quem revende vai saber olhando o índice Esalq do etanol hidratado, e vai poder usar essa informação para delinear seu negócio”, declara a pesquisadora.

De acordo com Diego Anicet, Head Comercial da Aprix, acompanhar o indicador  é importante para que o revendedor entenda a direção dos preços do etanol no mercado nacional. “O revendedor consegue ter uma boa noção de como está o custo do etanol, e se está variando para cima ou para baixo, e assim tem espaço para negociar”, declara.

 

 

Como é formado o preço do Etanol

Vários fatores interagem na definição do preço do etanol na bomba. Além da margem de lucro da distribuidora e dos postos, e dos tributos envolvidos no processo, há a cana-de-açúcar, principal matéria-prima do etanol brasileiro. De acordo com o diretor-técnico da Associação Brasileira da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Pádua Rodrigues, o preço de venda do produtor representa cerca de 50% a 60% do preço de bomba, fração que varia de acordo com a região.

No último ano, as condições climáticas — incidência de geada em julho e queimadas em setembro pela seca — levaram a uma perda de 13% da safra. A restrição na oferta de 525 milhões de toneladas de cana-de-açúcar significou uma redução de mais de 3 milhões de litros de etanol de cana-de-açúcar, que foi apoiada pelo etanol de milho. A safra atual, que teve início em 01/04, carrega a expectativa de recuperação da produtividade,

O fator mais difícil de compreender, no entanto, não está na oferta, como explica Rodrigues: "a demanda de combustíveis caiu muito entre dezembro e março. Se ela não voltar a ter um crescimento e recuperar toda essa defasagem na venda de combustíveis do ciclo Otto, a oferta pode ficar restrita”.

  A imagem mostra, sobre um fundo branco, um texto escrito em letras azul-marinho, que diz:

 

O que são os índices Esalq

Até o final da década de 1990, os preços do etanol eram definidos com o governo. Depois, foi criado o sistema Consecana, uma parceria entre os produtores independentes de cana-de-açúcar e as usinas, de modo que a remuneração dos fornecedores ocorresse com base no preço de venda dos produtos finais, considerando a qualidade da cana entregue nas usinas. Para que isso fosse possível, eram necessários os preços de nove derivados — seis relativos ao etanol. Assim o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP iniciou a elaboração de indicadores semanais e mensais de preços de etanol para os principais estados produtores do Brasil, conhecidos como indicadores Esalq.

Hoje, esses preços balizam outros negócios no escopo do etanol. O indicador diário é referência para a especulação financeira do etanol hidratado na B3, bem como para os contratos formalizados com base na legislação atual que faz com que as distribuidoras adquiram, por safra, uma quantidade predeterminada de etanol anidro para que não haja falta do produto no mercado.


Como os índices são calculados

Os índices semanais e mensais são feitos por meio de uma média aritmética simples dos preços coletados no mercado e passam por um processo de tratamento estatísticopara chegar ao valor mais próximo do real. “A maioria dos nossos indicadores utilizam um fator de ponderação que é o volume negociado”, explica a professora.

A única exceção é ao indicador diário, que é uma média aritmética simples, já que no dia existe uma impossibilidade de checar os volumes fornecidos pelas usinas em contraposição ao valor gerado pelo indicador. Entretanto, a limitação desse modelo é que existe uma dispersão de dados, como demonstra a pesquisadora: “localidades mais distantes das bases de referência, que são as mais importantes do estado, têm um frete maior. Então, normalmente, o preço deles na usina é menor”.

A solução encontrada foi incluir na análise o custo do frete entre a usina, em qualquer estado do país, e o posto, em Paulínia. “A dispersão dos preços diminui bastante, porque todos têm o transporte incluído, que é diretamente proporcional à distância. E o preço é inversamente proporcional à distância. Então, quando somamos os fretes ao preço negociado em cada localidade, acabamos tendo, na nossa série, preços muito mais próximos”, explica Mirian. Assim, o indicador cria independência com relação a amostra consultada no dia, o que aumenta a confiança do mercado.

 
 

 

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