Erasmo Battistella, presidente da BSBIOS e do Conselho da APROBIO discute sobre o mercado brasileiro de biodiesel

19 de Março de 2021

Referência no setor de biocombustíveis no Brasil, Erasmo Battistella avalia o estado atual, os principais desafios do mercado de biodiesel nacional

Um dos empresários mais influentes na produção de biocombustíveis no Brasil, Erasmo Carlos Battistella iniciou sua trajetória no ramo logo após a criação do Plano Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), em 2004. Na época, Battistella era dono de dois postos de combustíveis em Colorado, município localizado no norte do Rio Grande do Sul. Um ano depois, o gaúcho decidiu fundar a BSBIOS com o objetivo de produzir o combustível renovável. Localizada nas cidades de Passo Fundo e Marialva, a empresa foi responsável pela produção de 755.153 m³ de biodiesel, em 2020, o que representa 24,85% a mais do que o produzido no ano anterior. Em seu novo planejamento estratégico, a BSBIOS ambiciona estar entre as três maiores produtoras de biocombustíveis do mundo até 2030.

Além disso, a companhia é subsidiária do Grupo ECB, um dos maiores produtores de biodiesel do Brasil. Atuando como CEO no grupo, o empresário foi responsável pelo projeto Omega Green no Paraguai, um mega complexo para a produção de diesel renovável HVO. Tal construção representará a primeira planta de combustíveis renováveis de segunda geração do hemisfério sul.

Em entrevista exclusiva ao Aprix Journal, Erasmo Carlos Battitella discutiu sobre o mercado de biodiesel brasileiro, avaliando seus principais desafios e comentando sobre os últimos eventos relacionados ao setor. Confira na íntegra abaixo!

 

Aprix Journal — Quais as principais vantagens do uso de biodiesel?

Erasmo Battistela — As principais vantagens do uso de biodiesel são:

  • é uma energia renovável;
  • reduz as emissões na cadeia e na queima em aproximadamente 70%;
  • agrega valor à matéria-prima gerada no Brasil;
  • tem um aspecto social gigante, com a inclusão da agricultura familiar;
  • na saúde pública, reduz a mortalidade causada pela poluição nas grandes cidades.

Aprix Journal — Como é o mercado brasileiro de biodiesel atualmente?

Erasmo Battistela — O mercado brasileiro de biodiesel atualmente está com a mistura de 13% (B13) de biodiesel ao óleo diesel fóssil, com diretrizes para chegar a B15 em março de 2023. A expectativa é que nesse ano a produção e comercialização no Brasil ultrapasse os 7 bilhões de litros de biodiesel.

 

Aprix Journal — Quais os principais desafios deste mercado?

Erasmo Battistela — Os principais desafios do mercado de biodiesel brasileiro é continuarmos crescendo depois do B15. Acreditamos que estamos em um período de estabilidade, a cadeia produtiva está se organizando com a matéria-prima e a produção para atender ao B15, mas depois de alcançarmos a esse percentual acreditamos que o país tem condições de chegar ao B20, temos pela frente um desafio regulatório, mas não nesse momento.

 

Aprix Journal — Quais as perspectivas futuras para o biodiesel no Brasil e no mundo?

Erasmo Battistela — As perspectivas futuras para o biodiesel no Brasil e no mundo são boas, porque o mundo todo vai ter que aumentar o uso de biocombustíveis para atender os protocolos internacionais de redução de Gases de Efeito Estufa. O Brasil, em especial, tem um futuro muito promissor, pois somos um grande produtor de matéria-prima, teremos um futuro bom desde que tenhamos capacidade para produzir e exportar.

 

Aprix Journal — Como o Brasil se encontra no mercado internacional de biodiesel?

Erasmo Battistela — Atualmente, o mercado exterior é demandador de biodiesel. O país não consegue suprir isso devido ao custo Brasil ser muito alto e, com isso, a indústria não tem competitividade. Nós esperamos que com as reformas tributária e administrativa esse custo Brasil reduza e a indústria de biodiesel passe a ter competitividade para a exportação para outros países.

 

Aprix Journal — Quais os requisitos para uma constante evolução e ampliação do mercado de biodiesel no Brasil?

Erasmo Battistela — Os requisitos são os mesmo que foram a base da criação do mercado de biodiesel, alicerçado no tripé ambiental, social e econômico. Ambiental porque é ambientalmente mais correto do que o diesel fóssil; Social pois gera emprego e promove a inclusão da agricultura familiar; Econômico porque ajuda a equilibrar a balança tributária, gera PIB, agrega valor à matéria-prima, gera empregos e investimentos, movimenta a cadeia, e há uma correlação entre as cadeias produtivas, principalmente com a produção de proteína animal, sempre que a produção de biodiesel cresce também aumenta a geração de farelo de soja, consequentemente, mais matéria-prima para a produção de carnes.

 

Aprix Journal — O HBio e o Diesel RX poderiam ser considerados biocombustíveis?

Erasmo Battistela — Na opinião do segmento de biodiesel e da Associação que represento (APROBIO — Associação dos Produtores de Bicombustível do Brasil), nós acreditamos que biodiesel é um biocombustível éster, totalmente diferente do HVO ou do Diesel Verde. São biocombustíveis distintos e, por isso, nós acreditamos que tenha que haver mercados distintos também. Na nossa opinião, o HBio é um diesel “melhorado” em relação ao diesel convencional atual, mas ele não é um biocombustível. Ele continua sendo diesel com uma pegada ambiental um pouco melhor. E, por isso, também acreditamos que tenha que ter um mercado específico para ele, que não afete nem os mercados do biodiesel e nem do diesel verde.

 

Aprix Journal — A ampliação do uso do biodiesel solucionaria ou atrapalharia o problema das oscilações do preço do diesel?

Erasmo Battistela — Eu acredito que a ampliação do uso de biodiesel não vai solucionar ou atrapalhar. O que ocorre é que os dois produtos são produzidos à base de commodities internacionais e, por isso, sofrem o reflexo do câmbio. Portanto, eles não vão parar de oscilar. O que precisamos é garantir a rentabilidade para o setor de transporte, porque o insumo vai baixar e aumentar conforme o mercado global e nós não temos o poder no país para travar o mercado internacional. As empresas que não tiverem trabalhando com preços internacionais provavelmente enfrentarão grandes problemas para se manter no mercado.

 

Aprix Journal — Em dezembro o Governo anunciou que acabaria com os leilões públicos de biodiesel e substituiria pelo modelo de livre concorrência utilizado com o etanol. Qual a sua opinião sobre este tema?

Erasmo Battistela — O Governo anunciou que a partir de janeiro de 2022 vai haver uma nova forma de comercialização, não necessariamente vão acabar com os leilões. Ainda não temos claro qual será essa nova fórmula dos novos leilões. O que temos conversado com o Governo e trabalhado são dois temas que antecedem a forma de venda: o primeiro diz respeito à tributação, para que não haja aumento de custo no biodiesel; e, o segundo é a garantia de que todas as distribuidoras vão adicionar os percentuais de biodiesel estabelecidos e, que isto não esteja somente na lei, mas que continue na prática após janeiro de 2022.

A discussão do modelo de comercialização está sendo liderada pelo Ministério de Minas e Energia, que está conversando com o setor e a cadeia produtiva. Certamente vamos encontrar um denominador comum para que se possa atender a necessidade de todos, trazendo mais competitividade e agilidade na comercialização.

 


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