Guerra pode pressionar os preços na indústria brasileira

18 de Março de 2022

Foto: Tom Fisk/Pexels

Alimentos e fertilizantes são alguns dos produtos mais impactados pela alta nos commodities e restrição de importações

A elevação do preço dos combustíveis é um dos efeitos da guerra na Ucrânia que já afetou o mercado brasileiro. Entretanto, embora esse fator tenha efeitos imediatos sobre toda a cadeia produtiva, não é o único que afeta a indústria brasileira.

Outros commodities, como trigo e milho, importados dos países envolvidos no conflito, também alteram a dinâmica do setor industrial. E, de acordo com o professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Maurício Weiss, podem repercutir em outros setores também. "As commodities são afetadas não só pela questão da oferta e demanda, como também pelas expectativas, pois são negociadas no mercado futuro. Então quando há um aumento de um preço há essa tendência das outras aumentarem junto”, explica. 

 

Indústria alimentícia é uma das mais afetadas

O aumento no preço dos commodities é imediatamente repassado para a indústria, já que 70% do transporte é feito por caminhões. É o que explica Pedro Criado, Coordenador de Pricing e Revenue Management na Mondelēz International: “isso nos impacta bastante porque a matéria-prima é muito barata em relação ao preço do frete".

Além disso, a alta do petróleo pode elevar o custo das embalagens plásticas — assim como em 2020, quando subiram cerca de 30% —, o que poderia acarretar na diminuição da produção.

Esses fatores acendem um alerta para as companhias, que já devem estar pensando na precificação. Entretanto, o consumidor não sentirá o impacto tão cedo, pois Criado afirma que um aumento imediato seria um baque para a população. “Normalmente, temos de 30 a 40 dias para vender os produtos que estão dentro de casa, então vai haver essa troca de preços por volta de um a dois meses”, projeta.

A incerteza sobre como o conflito na prosseguirá também contribui para a hesitação no reajuste. Para que chegue ao consumidor, Criado acredita seja necessário um grande aumento nos combustíveis, commodities e embalagens, até que seja insustentável para a indústria manter a rentabilidade.

Baixe o material gratuito: Tendências de Pricing: Inteligência Artificial e Precificação Dinâmica! Compilado de materiais, curiosidades e entrevistas com especialistas na área de pricing!

 

Produção nacional de fertilizantes vê oportunidades

O Brasil é dependente do mercado externo de fertilizantes minerais — em 2021, o país importou 85% do que consumiu. No caso dos fertilizantes potássicos, Belarus, na região envolvida pelo conflito, é uma das duas principais exportadoras mundiais e suspendeu as importações para o Brasil no início deste mês.

A crise na disponibilidade dos fertilizantes — e o consequente aumento de preços — têm aumentado a procura por fertilizantes orgânicos de produção nacional. Fernando Carvalho Oliveira, engenheiro agrônomo da Tera Ambiental, vê o momento como uma oportunidade para a consolidação do produto no mercado. “Estamos podendo evidenciar aos produtores o reconhecimento de qualidade e eficiência dos nossos produtos. A grande expectativa que nós temos com isso é manter o status atual do produto no mercado no período após a crise."

 

“Isso não entusiasma o segmento produtivo em obter vantagens, vendendo mais caro. Até porque esse cenário causa desequilíbrios no mercado e todos os segmentos acabam perdendo de alguma forma”

— Fernando Carvalho Oliveira

 

À medida que os produtos entram no mercado com mais força, eles tendem a ser mais valorados, — o que não significa, segundo Oliveira, aproveitar o momento para aumentar os preços. “O segmento tem uma preocupação muito grande em não cometer abusos e nem ser afetado por prejuízos. Então, um comportamento justo nesse momento de crise é determinante para a nossa consolidação”, afirma.

 Uma mulher, de máscara, observa produtos em uma prateleira de supermercado

Além da guerra, outros fatores já pressionavam o mercado interno

Antes mesmo da guerra, a indústria brasileira já vinha tendo dificuldades, representadas pela redução da participação do setor industrial no PIB desde 2015. É o que analisa o docente do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRGS Fernando Ferrari Filho. “Esse processo de desindustrialização fez com que a atividade produtiva brasileira fosse dependente de insumos importados e de investimentos de empresas estrangeiras”, explica Filho, como ocorre na indústria de fertilizantes. Agora, na avaliação do economista, o conflito bélico entre Rússia e Ucrânia, atrasa a retomada do crescimento industrial.

A pandemia de coronavírus também contribuiu para agravar esse cenário, uma vez que houve não somente um problema de demanda, mas também de oferta, uma vez que as pessoas ficaram impossibilitadas de trabalhar e as empresas paralisaram ou reduziram suas atividades temporariamente. “A automaticamente, se você tem menos produção industrial, você tem menos oferta de bens e serviços, e tem como contrapartida uma dinâmica inflacionária que é o que se vem observando ao longo dos últimos meses”, afirma o professor.

 

De olho na inflação

Nesse cenário, petróleo e alimentos podem ser mais exportados pela atratividade do dólar, e o crescimento das exportações pode reduzir a oferta para a demanda interna. Por conta disso, pode haver necessidade de novos aumentos de preço para manter a rentabilidade anterior à guerra. “Se espera não somente uma inflação de custos, proveniente desses componentes, mas essa inflação de custo pode afetar dinamicamente a inflação brasileira, como já vinha afetando, e frear um pouco a capacidade de produção de bens e serviços”, alerta Filho.

Com a elevação nos custos de produção, o impacto para o consumidor afeta principalmente a população de baixa renda, o que também deve ser levado em conta no processo de precificação. O grupo de alimentos e bebidas compõe cerca de 20% do Índice de Preços no Consumidor (IPCA). Isso se soma ao aumento do preço da gasolina, que também pressiona o poder de compra, principalmente das classes C e D. Afinal, encher o tanque já equivale a um terço do salário mínimo. "Esse cliente vai comprar os itens básicos, mas não vai ter condições de comprar os itens mais supérfluos. Ele vai ter uma projeção de compra de produtos de segunda escala de compra, já com um nível de promoção”, aponta Pedro Criado.

 


 

Quer ficar por dentro das novidades do Aprix Journal? Assine nossa newsletter quinzenal e receba as últimas reportagens e notícias sobre  precificação, tecnologia e indústria diretamente em seu e-mail.

 


Compartilhe este material