Lucas Tito, especialista em método ágil, explica como aplicar a agilidade para além do espaço de trabalho

21 de Maio de 2021

Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Lucas Tito iniciou sua carreira como desenvolvedor. Porém, logo cedo percebeu que apesar de gostar de resolver problemas, os códigos não eram a sua praia. Foi então que em uma disciplina sobre Engenharia de Software, Lucas conheceu a análise de requisitos e se encontrou. Neste processo, busca-se entender as necessidades do cliente para, então, comunicar ao desenvolvedor o que é preciso ser feito. A forma mais comum de realizar essa comunicação se dá por meio de extensos documentos, os quais Lucas acabou percebendo que não eram lidos pela equipe. Buscando uma forma de tornar esse trabalho mais efetivo, o cientista da computação se encontrou no método ágil, um mindset que dá mais importância ao valor entregue para o cliente e as conexões entre pessoas do que processos, ferramentas e documentações.

A partir de então, o agilista passou a estudar questões como transparência, inspeção e adaptação e aplicar estes conceitos dentro das organizações. Com esse processo, seu currículo reúne hoje um grande leque de experiências dentro da área. Atualmente, Lucas atua como head de agilidade do Roads, ‘uma startup que entrega soluções baseadas em metodologias ágeis para a gestão estratégica e de times, com foco em um resultado saudável e sustentável.

Nesta semana, em entrevista exclusiva ao Aprix Journal, Lucas Tito conta sobre sua experiência com agilidade e como este método acabou se tornando não somente um mindset para ser aplicado a nível organizacional, mas uma filosofia de vida. Além disso, o agilista descreve sua visão sobre cultura de produto e explica a importância deste conceito. Confira:

 

Aprix Journal — Primeiramente, qual o seu conceito de agilidade e de método ágil? E por que esta é uma técnica eficiente?

Lucas Tito — A agilidade, para mim, não é uma técnica, nem um framework, nem um modelo. Para mim, agilidade é filosofia de vida. Eu não aplico agilidade só no meu ambiente de trabalho, mas em tudo. Qualquer coisa que eu veja que tem um problema, eu vou tentar resolver de uma forma adaptativa, ou seja, sem buscar a melhor solução do mundo, mas uma solução simples e efetiva. Para isso, eu valido e testo várias hipóteses até encontrar essa solução. Isso se aplica desde à peça de um armário que caiu até a falta de sal e pimenta em uma comida que eu estiver cozinhando. Então agilidade para mim é pensar em soluções rápidas, me permitir errar, aprender com isso, me adaptar e fazer melhor na próxima vez.

 

Aprix Journal — Hoje, então, você atua como Coordenador de Agilidade do Roads. Quais os principais desafios você enfrenta neste papel?

Lucas Tito — Em geral, entende-se que um coordenador atua a nível tático, porém eu atuo a nível estratégico. Então, meu principal trabalho é estar com a liderança de tecnologia, olhando para a empresa de uma forma cross e estratégica e verificando as iniciativas que vão surgindo. Por exemplo, precisamos contratar uma ferramenta tal, ou gerar engajamento na comunidade, ou contratar e criar uma área de vendas. Nesse contexto, meu trabalho é olhar para todas essas iniciativas e garantir que todas estejam entregando algum resultado. A nossa metodologia se baseia em OKRs (Objetivo e Resultados-chave, em português, traduzindo a sigla original “Objective and Key Results”), então, primeiro nós definimos os objetivos e, dentro desses objetivos, os resultados-chave que esperamos alcançar. Assim, toda vez que alguém me trouxer uma iniciativa, a nível estratégico e de gestão, eu vou estimular a liderança para coletivamente analisarmos se essa iniciativa irá impactar nesses resultados. Se for impactar, damos prosseguimento e tentamos fazer isso da forma mais simples possível. Se não, não fazemos, porque se fizermos não estaremos entregando valor. Em resumo, meu maior papel hoje é ajudar a essa liderança a tomar boas decisões e, realmente, focar naquilo que importa e que irá trazer resultado para a empresa.

 

Aprix Journal — O que você avalia ser essencial para garantir o sucesso não somente das entregas, mas também da própria jornada de produção?

Lucas Tito — Para mim, a coisa mais importante é saber ouvir e fazer leitura de cenários. O que eu quero dizer com isso? Tem muito profissional, independente da área de atuação, que quando entra em uma empresa, quer aplicar toda a sua bagagem de conhecimentos. Porém, eu acredito que o mais importante é você conseguir ouvir, entender e se conectar com as pessoas, porque a empresa está ali há um tempo, é rentável, tem uma história, tem outras pessoas com outras vivências e outras percepções, então, por que que a sua experiência específica é a correta? Claro, eu tenho as minhas opiniões do que é o certo e do que é errado, mas antes de dar as minhas opiniões, eu faço perguntas e escuto as pessoas. Por exemplo, por que que o presidente da empresa está falando que não quer seguir por um caminho que eu considero importante mas não disse pra ele? Ah! Porque ele tem essas opiniões. Bom, e o que está embasando essa opinião dele? Qual é a vivência que ele teve que faz com que ele pense assim? Pensando melhor, talvez esse seja o caminho correto e eu não precise expressar a minha opinião. Ou não, talvez eu precise. Porém, para que eu possa me expressar da melhor forma, fazendo com que ele realmente se importe com a minha opinião, eu preciso entender e me conectar com ele. Isso é uma das coisas mais importantes, porque caso contrário, qualquer ação que eu tiver será em vão e eu não estarei entregando valor nem pra ele, nem pra mim, nem pra empresa e nem valorizando as pessoas por trás da jornada.

 

Aprix Journal — Como a participação do cliente e do usuário no processo de desenvolvimento de um produto pode contribuir para a jornada de produção?

Lucas Tito — Sem exceção, todas as nossas ações estão entregando valor para alguém ou para nós mesmos. No caso de uma empresa, para os seus clientes. Independente do modelo de negócio, não se entrega simplesmente um produto ou um serviço, mas um valor também. Porém, o valor depende do julgamento de alguém. Então, por que quando um metre te oferece um vinho, ele te pergunta o que que você está buscando? Porque ele precisa entender o que é valor para você naquela situação. Então, só é possível entregar o valor que o cliente busca, se ele fizer parte do processo. Caso contrário, eu não estarei entregando, mas empurrando. É por isso que na agilidade se faz pequenas entregas e as valida com o cliente até entregar o produto por completo.

 

Aprix Journal — Em seu ponto de vista, o que é cultura de produto? Quão importante é que as pessoas envolvidas no processo de produção compreendam essa cultura?

Lucas Tito — Bom, o que é cultura? De modo geral, cultura é um conjunto de comportamentos, de crenças, de opiniões, de práticas que um grupo de pessoas têm. Uma cultura não é imposta, mas aprendida e praticada. Tratando-se de uma organização, há várias coisas que definem a cultura de uma empresa, porém, essa cultura pode ser real ou falsa. No último caso, as pessoas tentam empurrar os valores, os pilares e as crenças. O resultado disso é que os colaboradores acabam não praticando aquela cultura. Então, quando nos referimos à cultura de produto, o aspecto mais importante é colocar o usuário/cliente no centro de tudo. Sendo assim, se o desenvolvedor não está se preocupando com o que o cliente está sentindo em relação à entrega, não é cultura de produto. Se o designer quer desenhar só o que ele considera bonito, não é cultura de produto. Se o presidente só pensa em receita e em lucro e não entende que isso só virá com a satisfação dos seus clientes, não é cultura de produto.

 

Aprix Journal — Como se consegue estabelecer um equilíbrio entre as metas da empresa, dos seus clientes e dos seus colaboradores? E por que este equilíbrio é importante?

Lucas Tito — A primeira coisa que precisamos entender é que a palavra meta remete a um modelo de negócio, mental e motivacional de muito tempo atrás. Na motivação 1.0 e 2.0 é assim: eu tenho um número e eu preciso bater esse número. Nesse sentido, se eu não bater esse número, eu não sou bom. Hoje, quando se fala de agilidade, não se fala de meta, mas de objetivo e de propósito. Sendo assim, de alguma maneira, é preciso fazer com que todas as pessoas de uma organização, desde os colaboradores ao presidente, entendam qual é o propósito delas. Isso porque essa pessoa não precisa ter uma vida chata só porque no final do mês ela tem que bater uma meta. Isso não é algo que pregamos no método ágil. Na agilidade nós buscamos entender qual o seu propósito e como alcançá-lo e, ainda, quais resultados você consegue me entregar e como eu consigo te ajudar a ser a sua melhor versão. Eu não quero que você faça o melhor do mundo, ou seja, que você sempre bata metas. Como diz Mário Sérgio Cortella, eu quero que você faça o seu melhor dentro das condições que você tem até que você tenha condições melhores para fazer melhor ainda. Concluindo, não faça de qualquer forma, rápido e sem qualidade, porque dessa forma você deixa de ter uma cultura de produto.

 

 


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