Luiz Carvalho, analista do UBS BB, avalia os impactos da crise no setor e o futuro da revenda

06 de Novembro de 2020

Um dos principais analistas do mercado de petróleo e gás brasileiro, Luiz Carvalho concedeu entrevista ao Aprix Journal sobre os impactos da crise no setor de combustíveis, o fortalecimento das marcas próprias e o futuro incerto dos postos de gasolina. Carvalho é engenheiro de produção formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sendo responsável pelo departamento de análise do UBS BB e também pela cobertura do setor de Petróleo, Gás e Agronegócio para a América Latina.

“Acho que o futuro da revenda está menos atrelado à questão do relacionamento com o cliente final, mas sim conectado ao futuro do posicionamento dos postos de gasolina, olhando do ponto de vista da transição energética.”

Luiz Carvalho começou sua carreira de engenheiro de produção trabalhando na Shell, no Rio de Janeiro, na área de distribuição de combustíveis, passando pelo mercado de varejo e de grandes consumidores.

Com a descoberta do pré-sal brasileiro, Carvalho, que acreditava que o ‘grande ciclo profissional’ estava na exploração e produção, aceitou uma proposta da empresa Transocean, que era, na época, a maior empresa de perfuração de postos de petróleo offshore no mundo e que crescia no Brasil.

“Essa jornada foi interessante, porque eu tive de trabalhar embarcado durante praticamente todo esse tempo”, conta. Carvalho dividia o mês entre 14 dias a bordo da plataforma de perfuração, com uma função diferente a cada embarque, uma semana no escritório e uma de folga. “Aí, depois de três anos embarcado, eu falei: bem, já deu, não dá mais para ficar embarcado, e decidi trocar o macacão pelo terno e gravata”, relembra.

Nesta época, o setor de petróleo se expandia no mercado financeiro, e Carvalho foi encorajado a ingressar nesta nova área, devido à sua experiência na indústria. No final de 2009, então, adentrou o mercado financeiro para cobrir o setor de petróleo e gás, o que tem feito ao longo da última década. Nos últimos seis anos, Luiz Carvalho foi eleito pelos investidores institucionais como o analista nº 1 de petróleo e gás da América Latina e Brasil.

 

Aprix Journal — O que o UBS BB está percebendo em relação ao acompanhamento da crise no setor de combustíveis?

Luiz Carvalho — A grande verdade é que o mercado de distribuição de combustíveis vem passando por uma transformação muito grande. Se pegarmos talvez 10 anos atrás, passamos por um processo de consolidação do mercado no qual vimos empresas como Esso, Texaco, Atlantic e Agip saindo do Brasil, e o mercado se consolidou basicamente em três grandes companhias: a Raízen, a BR Distribuidora e a Ipiranga. Então, nesse processo, vimos de fato uma maior competitividade das companhias que chamamos de majors. E eu acho que a partir de 2016, quando a Petrobras passou a acompanhar a paridade internacional dos combustíveis e, principalmente, em um determinado momento, por uma necessidade de gerar caixa e até para compensar as perdas que obteve nos anos que o preço ficou represado, isso abriu uma oportunidade para as companhias de trading importarem combustíveis a preços mais baixos do que eram praticados aqui no Brasil, o que fez com que esse chamado bandeira branca ganhasse muita competitividade. Então, de 2016 a 2019, vimos um movimento talvez contrário, de uma maior competitividade dos bandeiras brancas, dos players independentes, em relação às majors. E o que estamos vendo agora, e acho que talvez seja um segundo passo desse movimento, é de fato uma consolidação na parte de baixo da cadeia, ou seja, uma consolidação desses bandeiras brancas, desses players independentes. Eu acho que esse termo bandeira branca em algum momento tende a desaparecer, porque o que estamos vendo é a formação ou o fortalecimento das bandeiras regionais, de empresas que não são nacionais, como talvez a Ale, a Ipiranga, a BR e a Raízen, mas que são muito fortes nos mercados que atuam — ou seja, uma Vitol, uma Total, uma Rodoil, uma Dislub — mas que não têm a ambição de ter uma presença nacional. E, obviamente, isso vai causar uma competição regional para todas essas distribuidoras grandes, muito maior do que vimos no passado.

Para completar isso tudo, você teve essa crise do coronavírus que trouxe os volumes para um patamar que ninguém imaginava. Mas eu acho que, mais do que isso, eu estou mais positivo com essa crise do coronavírus, porque a partir do momento em que tivermos os lockdowns das cidades liberados, eu acho que o consumo volta rápido, como os próprios dados da Aprix mostram que já temos uma certa recuperação. Se ajustarmos isso com o PIB, estamos com um percentual muito pequeno, abaixo do PIB, para esse ano, então, na minha visão, esse não é o principal desafio.

Acho que o grande marco da indústria, olhando para frente, é de fato a venda das refinarias da Petrobras e como isso vai impactar a questão da competitividade entre as majors e as regionais. Teremos de verificar se de fato a companhia que tem um volume muito grande vai ter algum tipo de benefício do ponto de vista de preço ou do ponto de vista logístico ou do custo de servir. Então acho que essa é a grande discussão, eu diria.

 

Aprix Journal — De que maneira isso impactou as distribuidoras?

Luiz Carvalho — Acho que basicamente impactou porque elas tiveram de estar mais próximas dos revendedores. Acho que tiveram de se adequar numa questão de custo, mas essa indústria já é muito competitiva, as margens são muito apertadas, então as empresas eficientes já trabalham num nível de eficiência de fato muito próximo do limite. Então eu acho que houve um impacto momentâneo, mas nada que elas não conseguirão passar.

 

Aprix Journal — Para o UBS BB, qual é a tendência de recuperação do mercado?

Luiz Carvalho — A tendência de recuperação do mercado eu acho que está muito atrelada ao PIB. A grande verdade é que vimos no momento do lockdown uma retração muito grande da demanda, porque ninguém podia sair de casa, obviamente, mas a nossa visão é de que assim que as coisas começarem a voltar ao normal, como a gente já começa a perceber, o consumo de combustíveis também volta rapidamente. As pessoas talvez deixem de ir ao restaurante, mas talvez não deixem de usar o carro para ir trabalhar, até por uma questão de saúde, quer dizer, pelo risco de contaminação, as pessoas vão tentar evitar, talvez um pouco, usar o transporte público. O que de fato eu diria que pode mudar é um pouco do hábito de consumo. Quer dizer, mais pessoas fazendo home office, então aquela necessidade de ir para o trabalho todo dia diminui. Eventualmente, isso pode de alguma forma impactar algum tipo de correlação entre o consumo de combustíveis e o PIB. Mas como grande parte do PIB ainda é transporte de carga, eu diria que não deveria ter uma mudança significativa.

 

Aprix Journal — Em relação à segunda onda do novo coronavírus que vem sendo observada em diversos países, como os analistas avaliam o impacto no Brasil?

Luiz Carvalho — Eu acho que ainda é cedo para ter uma avaliação um pouco mais concreta. Como eu falei, o UBS BB tem acompanhado isso e temos um monitoramento semanal de mobilidade em diversos países. Começamos a ver isso na França, na Alemanha, Espanha, uma segunda onda, e aí, os governos talvez não querem cometer os erros que cometeram no início e querem aproveitar os acertos que tiveram, para poderem se beneficiar disso, e estão sendo mais cautelosos. Acho que ainda é cedo para dizermos como essa segunda onda vai acontecer, se é que vai acontecer, aqui no Brasil. A vantagem é que esse efeito, esse vírus, veio de leste a oeste e norte a sul, então a América do Sul talvez tenha sido uma das últimas a serem afetadas de forma mais contundente pelo vírus, e acho que na segunda onda talvez aconteça da mesma forma. A vantagem disso é que, dependendo do avanço da ciência, da medicina, talvez quando essa segunda onda chegar ao Brasil, já tenhamos alguma vacina que talvez possa minimizar os impactos eventuais de um processo desses. Mas de novo, é muito cedo para termos uma afirmação um pouco mais concreta de qual seria o impacto.

 

Aprix Journal — O dólar tem alcançado máximas históricas nos últimos meses. De que maneira isso está afetando o setor de combustíveis?

Luiz Carvalho — Eu acho que relativamente pouco, porque desde final de 2014, quando a Petrobras passou a tentar acompanhar os preços internacionais, os preços domésticos acompanham os mesmos em reais. Então, quer dizer que, se o petróleo sai de 50 dólares para 60, o preço do combustível no mercado doméstico acompanha. Se o câmbio também se deprecia, temos também um impacto em preços em reais. Então o que acontece basicamente é que o preço da gasolina fica um pouco mais caro ou mais barato na bomba no final do dia. E aí, obviamente isso pode de uma forma ou de outra impactar um pouco a demanda dos combustíveis olhando para frente. Mas não vejo um impacto do ponto de vista de margem para as distribuidoras.

 

Aprix Journal — Como o mercado avalia a privatização da BR Distribuidora? Os impactos são positivos ou negativos?

Luiz Carvalho — Eu acho que dá para dividir essa pergunta em duas. Acho que o impacto para a companhia BR Distribuidora sem dúvida é positivo. Eu tenho uma visão de que o governo deveria ter estatais para educação, saúde e segurança pública, o resto deveria ser tudo privado, porque o setor privado é muito mais eficiente do que qualquer governo para gerenciar uma empresa de petróleo, de distribuição de combustíveis. Então, a privatização da BR traz muito mais competitividade para a própria companhia do ponto de vista de posicionamento de mercado. Já vemos isso acontecer nos números, então não é novidade que isso esteja acontecendo. Para o setor de distribuição, ter um player fortalecido também acho que é bom, acaba trazendo mais competição, o que teoricamente traz um melhor serviço a menores custos para o consumidor final. Então eu acho que só tem impactos positivos na privatização da BR, tanto para a companhia especificamente quanto para o mercado e a sociedade. Quem eventualmente não vai gostar, se é que tem alguém que pode sair perdendo com essa, são os competidores que vão ter uma outra companhia talvez mais eficiente, mais ágil, mais competente para brigar pelo mercado.

 

Aprix Journal — Na sua opinião, qual será o futuro da revenda?

Luiz Carvalho — Acho que o futuro da revenda passa talvez, no curto prazo, por essa questão do relacionamento, do cashback, do programa de fidelidade. Acho que essa é uma discussão extremamente relevante no momento. Mas acho que temos de olhar um pouco mais adiante. A gente vem vendo alguns países fazendo compromissos muito fortes com a transição energética. O UBS BB publicou um relatório, semana passada, mostrando que avaliamos sete tipos de bateria de veículos elétricos, e nossa visão é de que, muito em breve, em alguns poucos anos, coisa de quatro, cinco anos, o carro elétrico já vai ser competitivo do ponto de vista de preço para o consumidor, comparado com um carro a combustão. Se compararmos o custo de combustível e o custo de manutenção hoje, de uma certa forma já é competitivo. Então acho que o futuro da revenda está menos atrelado à questão do relacionamento com o cliente final, mas sim conectado ao futuro do posicionamento dos postos de gasolina, olhando do ponto de vista da transição energética. O Brasil tem em torno de 45 mil postos, me parece um numero muito grande quando olhamos para o futuro, no qual talvez a necessidade de postos, principalmente em áreas urbanas, vai ser menor, e em que eventualmente postos de estrada vão ter uma função diferente, muito mais de apoio ou de recarga rápida do que eventualmente uma coisa parecida com o que temos hoje. Acho que talvez esse é o futuro da revenda, passando um pouco pelo setor imobiliário, porque logicamente temos aí 45 mil terrenos no Brasil que estão sendo utilizados hoje por postos de gasolina que, em algum momento, podem, não a sua totalidade, obviamente, mas talvez um número relevante, virarem um outro tipo de comércio. Acho que essa é a principal questão olhando para frente.


 

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