O gênero e a cor da tecnologia

16 de Abril de 2021

Entenda a lacuna feminina na área de TI e seus reflexos na própria tecnologia

O mundo está em constante mudança e o Aprix Journal acompanha de perto em especial os setores de precificação, combustíveis e tecnologia. Verificamos que já não há espaço para realizar decisões de preços com base na intuição. Cada vez mais as ferramentas de inteligência artificial têm provado serem aliados nos processos de precificação ao utilizarem uma enorme base de dados como referência para realizar sugestões de preços eficientes e fiéis à dinâmica do mercado. O mesmo processo de inovação tem sido visto no setor de combustíveis. A transição energética de combustíveis fósseis para renováveis representa uma das pautas e preocupações mais atuais do mercado. No setor de tecnologia não seria diferente. A inovação em relação aos avanços tecnológicos tem se mostrado cada vez mais insuficiente enquanto ainda há uma lacuna de gênero e etnia na área, desde o acesso a oportunidades como ao salário. As pesquisas comprovam este contexto:

  • Apenas 20% dos profissionais que atuam com tecnologia no Brasil são mulheres, de acordo com o IBGE;
  • As mulheres também representam 15% dos alunos matriculados em cursos de ciência da computação e engenharia, segundo a Sociedade Brasileira de Computação;
  • Ainda assim, 79% das mulheres que ingressam em um curso de tecnologia desistem no primeiro ano da faculdade, conforme dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD);
  • A PNAD também aponta que, em termos proporcionais, as mulheres recebem em média 76,1% do rendimento de trabalho dos homens. Ou seja, enquanto o rendimento mensal masculino foi de R$ 2.058, o das mulheres foi R$ 1.567.

Tendo em vista a relevância do tema, o Aprix Journal buscou entender a que se deve este cenário e como esse contexto acaba se refletindo no desenvolvimento da própria tecnologia. Confira:

IME/USP

Foto: IME/USP

De protagonistas a minoria

Silvia Coelho, mestre em Engenharia Elétrica, afirma que nem sempre os campos de estudo e atuação de tecnologia, informática e computação foram majoritariamente masculinos: “Na verdade, as mulheres saíram da condição de pioneiras e protagonistas para tornarem-se minoria na área”. A engenheira relembra a foto emblemática da primeira turma de Ciências da Computação da Universidade de São Paulo (USP), fotografada em 1974, em que haviam 14 alunas e 6 alunos.

Esta inversão, conforme explica Silvia, se deu pela criação dos estereótipos do menino geek e anti-social vinculados aos marketing de brinquedos infantis: “Foi criado no inconsciente coletivo que tecnologia é coisa de menino. Então, houve uma geração de meninas que cresceram com o computador no quarto do irmão”. O livro The Computer Boys Take Over: Computers, Programmers, and the Politics of Technical Expertise (Os Meninos do Computador Assumem o Controle: Computadores, Programadores e a Política de Especialização Técnica, tradução livre do inglês) escrito por Nathan Ensmenger, professor da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, narra a criação deste vínculo do computador com o gênero masculino não somente no ambiente corporativo, mas também no governo, na política e na sociedade em geral.

Em convergência à esta perspectiva, estudos têm comprovado que não há fatores biológicos que determinem a diferença de habilidades cognitivas, interesses e competências entre homens e mulheres, ou seja, não existe um cérebro masculino ou feminino. Para a socióloga especializada em estudos de gêneros, Marina Grandi Giongo, o que existe é uma relação entre a forma como meninos e meninas são socializados no ambiente familiar e escolar. Esta socialização, na visão de Marina, gera influência nos caminhos que cada gênero irá seguir na vida adulta e, consequentemente, baliza a janela de oportunidades profissionais. “O ambiente onde uma criança se desenvolve e os estímulos diferenciados a que meninas e meninos são expostos desde o nascimento compõem um arranjo complexo e subjetivo de elementos extremamente sutis que somados geram influência no refinamento de aptidões e na elaboração de futuros interesses”, explica. Como exemplo destes elementos, a socióloga cita cores, brinquedos, modos de agir e pensar. Silvia complementa esta perspectiva ao entender que a vinculação do computador à imagem masculina acabou influenciando na maior familiaridade de meninos com a tecnologia: “Enquanto a menina brinca de boneca e de casinha, o menino joga no computador. Isso faz com que os meninos já tenham afinidade com tecnologia ainda na infância e as meninas não. Então, no momento de escolher uma carreira, não é algo natural para as mulheres”, analisa. Dessa forma, entende-se que um dos principais fatores que balizam a presença feminina na área de TI está mais relacionado com a socialização e o estímulo que recebe do que com motivos biológicos. “No momento de escolher uma carreira, não é algo natural para as mulheres”, conclui Silvia.

Independente das razões, de fato houve uma redução da presença feminina no campo da tecnologia. Em comparação com a turma de 1974, a turma do primeiro semestre de 2021 do curso de Ciências da Computação da USP tem 6 mulheres e 53 homens. Segundo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC- USP), o curso conta ao todo com 61 mulheres e 497 homens. Esta redução não se restringiu aos limites geográficos brasileiros. De acordo com o estudo intitulado Women in IT: The Facts (Mulheres no TI: Os fatos, tradução livre do inglês) realizado pelo National Center for Women & Information Technology (Centro Nacional para Mulheres e Tecnologia da Informação, tradução livre do inglês), entre o final do século XX e início do XXI, as mulheres também deram lugar aos homens na área de tecnologia nos Estados Unidos. A pesquisa mostra que em 1985, 37% dos diplomas de Ciência da Computação eram concedidos a mulheres; já em 2012 este número caiu para 18% . Atualmente, no Brasil, as mulheres representam um pouco mais de 15% do total de ingressantes em cursos da área de TI, conforme a pesquisa do Censo Superior de Educação realizada pela organização Gênero e Número. O levantamento também apontou que as mulheres negras compõem apenas 32% do número total de alunas mulheres.

Além disso, há um alto índice de desistência feminina em cursos da área de tecnologia no primeiro ano de faculdade. Apenas 21% das ingressantes permanecem até o segundo ano. Marina Giongo afirma que existe uma série de fatores que exercem influência tanto no acesso como na permanência de mulheres nos cursos de engenharias, tecnologias da informação, informática, computação: “Problemas como assédio moral, reprodução de estereótipos de gêneros, entre outros exemplos, acarretam em constrangimentos que afetam a confiança na própria capacidade”, cita a socióloga. Silvia acrescenta outras questões: “Além de elas não terem tanta familiaridade com tecnologia como os homens, elas se sentem minoria nesse espaço. Tudo isso acaba gerando um senso de não pertencimento, o que leva à desistência”.

Esse foi o sentimento da Ana Luiza Sampaio, Engenheira de software no banco Itaú e professora de back-end na Reprograma e no Minas Programam, iniciativas de empoderamento feminino por meio do ensino de programação. “Quando eu entrei na USP, percebi melhor a discrepância. Tinham poucas pessoas negras e muitas pessoas que tinham ganhado carro dos pais, por exemplo, e que não precisavam trabalhar. Várias vezes eu olhava para aquela realidade e me perguntava o que que eu estava fazendo ali.” relata e complementa: “Ser uma mulher negra na USP era muito complicado, porque você começa a pensar que aquele não é o seu lugar e, até mesmo, que você não merece estar naquele espaço”.

Ainda que a engenheira tenha conhecimento desta realidade, Silvia explica que sua experiência tanto na graduação quanto no mestrado foi diferente: “Eu estudei Engenharia Elétrica entre os anos 1990 e 2000 e não havia nenhum tipo de abordagem negativa ou hostilidade no espaço acadêmico. Depois, anos mais tarde, fiz um curso de Internet of Things no Senai Santa Cecília e, apesar de ter sido uma das poucas cursando, em nenhum momento eu senti que não pertencia àquele lugar”. Além de engenheira, Silvia também é fundadora do Elas Programam, organização de incentivo e formação de mulheres do mercado de tecnologia. “Foi por meio dessa comunidade que eu entendi que vivia em um contexto de exceção”, relata.

Como consequência da pouca permanência feminina em cursos da área de tecnologia, o número de profissionais mulheres formadas também acaba sendo baixo. Os dados do Censo da Educação Superior, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), comprovam. Segundo o levantamento, apenas 13,4% do número total de concluintes de graduação nas áreas de Computação e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), em 2019, eram mulheres.

Cabe ressaltar que o ensino superior não representa o único meio de formação na área de tecnologia. Conforme a pesquisa #QUEMCODABR, realizada pelo projeto PretaLab e pela consultoria Thoughtworks, 57% dos entrevistados iniciaram sua carreira em TI em centros de ensino formal, enquanto 45% informalmente de forma autodidata, 19% através da Internet, 14% no trabalho e 5% em iniciativas sociais, centros comunitários e outros espaços de livre formação. Não obstante, o mesmo estudo aponta que em 43,6% das equipes de tecnologia, não há ninguém sem ensino superior.

 

Foto: Christina @ wocintechchat.com

Foto: Christina @ wocintechchat.com 

Os desafios de ser mulher na carreira de tecnologia

Ao chegar no mercado de trabalho, o cenário não é menos desanimador, visto que as mulheres recebem salários 24% mais baixos do que os homens. Além disso, uma pesquisa realizada pela UPWIT (Unlocking the Power of Women for Innovation and Transformation ou Destravando o Poder das Mulheres para Inovação e Transformação, em português) as mulheres são duas vezes mais propensas a abandonar empresas de tecnologia do que homens (41% contra 17%).

Esta foi a realidade de Silvia, que apesar de não ter vivenciado experiências negativas e pouco acolhedoras nos espaços acadêmicos, conta que sentiu os desafios de ser mulher ao se tornar mãe: “Quando eu concluí o mestrado, meu professor me convidou para iniciar o doutorado. No entanto, eu e meu marido queríamos construir uma família. Então, eu me vi em uma bifurcação: ou eu dava continuidade à minha carreira acadêmica ou eu me tornava mãe. Na minha cabeça eu não podia fazer as duas coisas”. Anos depois, um pouco antes de engravidar do segundo filho, descobriu que não havia sido promovida para um cargo de liderança porque a maternidade não lhe dava tanta disponibilidade. “Mais uma vez eu me vi em uma bifurcação ao ter que escolher entre ser líder e seguir na carreira ou aumentar a família. Então, eu entendi que o mercado de trabalho não era para mim”, relata e complementa: “A Silvia de hoje já pensaria: ‘bom, se eu não vou poder ser líder nessa empresa, então vou buscar outro lugar para ser’”. De acordo com a pesquisa da PretaLab e da Thoughtworks, em 62,1% dos casos, o mercado de trabalho não é para nenhuma mulher profissional da tecnologia que seja mãe e em 19,6% dos casos, as mulheres mães representam de 5 a 10% das pessoas nas equipes de trabalho em tecnologia.

Além disso, a pesquisa mostra que o mercado de tecnologia também não inclui uma grande diversidade de mulheres negras. Em 32,7% dos casos, não há nenhuma pessoa negra nas equipes de trabalho em áreas de tecnologia, e em 68,5% dos casos, as pessoas negras representam no máximo 10% da equipe total de trabalho. Este é o caso da Débora Borges, desenvolvedora focada em desenvolvimento de sistemas web e professora do Reprograma. “A título de exemplo, sou a única mulher no setor de desenvolvimento de onde trabalho e a única negra na empresa inteira”, demonstra. De acordo com Débora, a área ainda é predominantemente masculina e branca, o que se reflete também nos cargos designados às mulheres. “Muitas vezes as empresas continuam contratando mulheres apenas para cargos como Design, UX ou Front-End, pois se espera que elas dêem um ‘toque feminino’ às telas desenvolvidas. Enquanto o desenvolvimento do funcionamento do sistema fica com os homens, porque eles são mais lógicos e assertivos”, analisa. Por outro lado, Ana Luiza relata uma experiência diferente: “Eu tenho muita sorte porque sou funcionária do banco Itaú e nós temos um diálogo muito legal sobre raça. Além disso, tem grupos de pessoas negras da tecnologia. Então, hoje eu vejo dificuldade de entrar em alguns espaços muito mais por ser mulher e muito menos por ser negra. Por se tratar se tecnologia, às vezes as pessoas te ouvem um pouco menos e te subestimam um pouco mais”.

Photo by Christina @ wocintechchat.com on Unsplash

Foto: Christina @ wocintechchat.com 

Por que a própria tecnologia precisa de mais diversidade?

Cada vez mais tem se aplicado Inteligência Artificial (IA) para automatizar processos, resolver problemas e tomar decisões. A ferramenta tem sido aplicada para avaliar pontuações de crédito com o objetivo de liberar empréstimos, apoiar decisões judiciais relacionadas a finanças e condenações, buscar candidatos em processos seletivos, fazer reconhecimento facial e outra infinidade de aplicações. Apesar da funcionalidade da tecnologia, há diversos casos em que os algoritmos desenvolvidos acabam replicando vieses discriminatórios e preconceituosos.

Há alguns meses atrás, o Twitter recebeu a acusação de utilizar um algoritmo racista. A denúncia se deu após usuários da rede social realizarem testes publicando imagens de homens brancos e negros em vários formatos de imagens. Após esse experimento, foi constatado que independente do formato, o algoritmo dava destaque aos homens brancos. Em nota oficial, o Twitter informou que não havia sido encontrada nenhuma evidência de viés racial em seu modelo de software e que abriria o código para que terceiros pudessem revisá-lo. A reprodução de racismo através da tecnologia também foi identificada em diversos aplicativos e sistemas ao serem incapazes de reconhecer o rosto de pessoas negras. A rede social Snapchat foi incapaz de aplicar um filtro em um rosto negro; Dois algoritmos desenvolvidos pela multinacional de tecnologia francesa Idemia falharam ao realizar combinações de rostos de mulheres negras; O Google Photos etiquetou fotos de um usuário com seus amigos negros como gorilas.

Outros tipos de vieses discriminatórios em algoritmos também foram identificados em tecnologias de Processamento de Linguagem Natural, como Amazon Comprehend, Google Natural Language API e Stanford Parser ao não compreenderem com o mesmo nível de exatidão o pronome “hers” (dela, em inglês) em comparação com “his” (dele). A assistente virtual desenvolvida pela Amazon, Alexa, também não reconhece sotaques.

Ana Luiza Sampaio analisa sobre como a tecnologia ao mesmo tempo que combate, também reproduz o racismo e o machismo: “A tecnologia é capaz de combater essas discriminações ao permitir movimentações específicas para pessoas negras e mulheres, ao servir de espaço para a criação de comunidades engajadas neste tipo de luta”. Porém, a engenharia de software pondera: “No final das contas, a tecnologia é apenas uma ferramenta, não uma solução. Então, tudo vai depender de quem a estiver utilizando”. Essa perspectiva converge com o entendimento de Silvia Coelho: “Da mesma forma que existe um viés em relação às mulheres, às pessoas negras, LGBTs no mundo real, no digital também existirá. Afinal, quem desenvolve os produtos digitais são pessoas reais. Este é o motivo pelo qual o mercado de tecnologia precisa de diversidade, pois só quem vive na pele os vieses da vida real que conseguirá resolver esse tipo de problema”.

 


Quer ficar por dentro das novidades do Aprix Journal? Assine nossa newsletter semanal e receba as últimas reportagens e notícias sobre combustíveis, tecnologia e precificação diretamente em seu e-mail. Ou, se preferir, receba pelo WhatsApp. Basta clicar neste link, salvar nosso número e nos enviar uma mensagem.

 


Compartilhe este material