Sérgio Araújo, presidente da Abicom, explica os principais motivos para o aumento no preço dos combustíveis

03 de Setembro de 2021

Além disso, Araújo sugere mecanismos que o Governo poderia recorrer para amortecer a variação de preço nos combustíveis

Não há nenhuma novidade que o preço da gasolina tenha aumentado nos últimos meses. De acordo com as análises realizadas pelo setor de inteligência da Aprix, este movimento tem ocorrido em especial desde maio deste ano. Ao longo do mês de agosto, foi registrado um aumento de 11.5 centavos no preço da gasolina, o que fez o combustível passar a marca de R$7,00 em diversas cidades brasileiras.  

Frente a este cenário, o Aprix Journal entrevistou Sérgio Araújo, presidente executivo da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Em entrevista, Araújo explica quais os principais motivos para este aumento no preço da gasolina, menciona os principais impactos aos importadores e distribuidores de combustível e sugere saídas para suavizar este movimento nos preços. 

 

Aprix Journal - Recentemente, um dos assuntos mais em pauta entre a sociedade tem sido o aumento no preço do combustível. Em alguns lugares, a gasolina chegou a passar a marca de R$7. Comparando com o cenário internacional, pode-se considerar este um valor caro?

Sérgio Araújo - A definição dos preços dos combustíveis é livre no Brasil desde 2002. Atualmente, a Petrobras mantém uma política de acompanhamento do mercado internacional (PPI – Preço de Paridade de Importação) e é inevitável que, caso os preços internacionais subam, também haja um repasse nos preços internos já que os combustíveis são commodities globais e seus preços são determinados internacionalmente. No nosso caso, os preços são fortemente impactados pelo câmbio, que hoje está flutuando na faixa de R$5,20/US$, que é um elevado patamar quando comparamos com os valores dos últimos 5 anos.

 

Aprix Journal - E a que se deve esse aumento?

Sérgio Araújo -  Os aumentos se devem às variações dos preços das commodities no mercado internacional, além da pressão exercida pela taxa de câmbio. Lembro que em agosto do ano passado, o petróleo estava a US$40/barril, hoje está variando em torno de US$70/barril.

Devem ser considerados também, os preços dos biocombustíveis adicionados, compulsoriamente, na gasolina (etanol anidro) e no óleo diesel (biodiesel) que têm pesos importantes nas composições dos preços finais dos combustíveis vendidos para os consumidores. O preço do biodiesel, por exemplo, é mais do que o dobro do preço do diesel vendido pelas refinarias e pelos importadores.

Além das questões tributárias. No caso específico da gasolina os tributos têm participação média de 42% no custo, sendo 14% de impostos federais (CIDE de R$0,10/l e PIS e Cofins de R$0,79/l) e 28% (25% a 34%) de imposto estadual (ICMS), enquanto os 27% de etanol anidro, participam, em média com 16%.
Já no caso do diesel, os tributos participam em média com 22% no custo, sendo 8% de impostos federais (PIS e Cofins de R$0,3515/l) e 14% (12% a 25%) de imposto estadual (ICMS), enquanto o biodiesel participa, em média, com 13%.

 

Aprix Journal - Qual seria a saída?

Sérgio Araújo - Para suavizar o aumento do preço dos combustíveis para a sociedade, o Governo poderia criar mecanismos para amortecer a variação dos preços com política pública. Importante ressaltar, que políticas públicas devem ser feitas pelo Governo e nunca por empresas. No passado, o Governo houve interferência na política de precificação da Petrobras, e esse não é o caminho adequado. Não é bom para a empresa, e não é bom para o país.A Abicom sugeriu a criação de um fundo para a amortização dos preços de combustíveis tendo como sustentação a utilização da receita excedente com os royalties do petróleo.

 

Aprix Journal - Em contrapartida, ultimamente o valor tanto do Brent quanto do WTI tem recuado de modo significativo. Por que essa queda não se reflete no valor do combustível?

Sérgio Araújo - Se olharmos no horizonte de um ano, o Brent que está variando em torno de US$70/barril, em agosto de 2020 estava na faixa de US$40/barril, ou seja teve um aumento de 75%. [Na Abicom] Acompanhamos diariamente os preços no mercado internacional e comparamos com os preços praticados no mercado nacional, e o que temos observado é que na gasolina a Petrobras tem praticado consistentemente preços inferiores aos preços de paridade, e no óleo diesel, desde abril de 2021, após a mudança na gestão da Petrobras, temos observado a busca de prática de preços alinhados ao mercado internacional, com pequenas defasagens.

 

Aprix Journal - E como esse contexto tem afetado os distribuidores e importadores?

Sérgio Araújo -  A viabilidade das operações de importações de combustíveis por distribuidores e importadores depende das práticas dos preços pelo agente dominante, que é a Petrobras, hoje formadora de preços no mercado nacional.
Considerando o histórico de interferências do governo na precificação dos combustíveis, existe ainda insegurança para os distribuidores e importadores, tendo em vista que o mercado brasileiro ainda não deu todos os sinais de que segue num caminho de liberdade.

 


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