Sylvia Anjos, referência em geologia do petróleo, compartilha sua experiência na perfuração do 1º poço de pré-sal

09 de Julho de 2021

A geóloga também fala sobre a importância da Petrobras na conquista da autossuficiência em petróleo e independência energética do Brasil

 
Reconhecida por sua liderança e dedicação no desenvolvimento e difusão da geologia de petróleo, Sylvia Anjos tem uma longa experiência na área. Sua história com a geologia começou quando tinha apenas 6 anos de idade, ao ficar fascinada com uma história contada por seu pai. “Ele me contou que o Brasil e a África já estiveram juntos algum dia, pois olhando no mapa era como se fosse um encaixe de quebra- cabeça”, lembra. Seu encantamento com a geologia se intensificou anos mais tarde, entre seus 14 ou 15 anos, em uma aula de geografia sobre a evolução dos Andes, que “subiu e isolou a Amazônia do mar”, explica.
 
Tanto as histórias contadas por seu pai quanto a aula da Teoria das Placas Tectônicas tiveram uma grande influência na hora de decidir que carreira seguiria. Mesmo tendo te preparado para cursar engenharia, a batida do martelo se deu para o curso de geologia, o qual estudou na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Enquanto realizava sua graduação, Sylvia teve sua primeira experiência na indústria de Oil & Gas, ao estagiar na Petrobras e ali foi onde permaneceu mesmo após se graduar, em 1978. Na época, a geóloga participou de um concurso para seguir trabalhando na estatal, o qual das 80 vagas, apenas 2 eram destinadas a mulheres. De acordo com Sylvia, o motivo se devia ao fato de que as instalações das plataformas não permitiam. Não havia banheiro para mulheres nelas, por exemplo. “Depois de muito insistir, meu chefe autorizou que eu e minha colega embarcássemos em uma. Porém, precisávamos voltar de helicóptero para dormir no hotel”, conta.

Anos mais tarde, a geóloga seguiu seus estudos e se tornou mestre e doutora em geologia pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, Sylvia retornou à Petrobras, onde foi responsável por mapear e identificar áreas potenciais para perfurar poços pioneiros. Durante esta experiência, a geóloga atuou na perfuração do primeiro poço de pré-sal, em 2005, o qual mostrou o grande potencial da Bacia de Santos.

Hoje, com mais de 42 anos trabalhando com geologia do petróleo na Petrobras, Sylvia é gerente de Geologia da petroleira e gerente geral de AppliedTechnologies de Libra, no pré-sal. Além disso, a geóloga é diretora da Associação Brasileira de Geólogos de Petróleo (ABGP), onde promove e difunde ainda mais o conhecimento sobre geologia de petróleo.

Em entrevista exclusiva ao Aprix Journal, Sylvia Anjos conversa sobre sua experiência na perfuração do primeiro poço de pré-sal. Além disso, a geóloga explica as características geológicas que fazem de uma área explorável e a importância da Petrobras na conquista da autossuficiência em petróleo e independência energética do Brasil. Confira:

Aprix Journal — Você representa uma das pioneiras da geologia de petróleo no Brasil. Estando nessa posição, como você avalia o estudo da geologia em nosso país?

Sylvia Anjos — As pioneiras geólogas na área de petróleo no Brasil foram as três primeiras mulheres a trabalharem como paleontólogas na Petrobras, na década de 1960. Depois, somente na segunda metade da década de 1970 foi permitida a entrada de mulheres na Petrobras. Porém, ainda assim, era um número reduzidíssimo de vagas. Eu entrei em 1978, quando foram abertas 80 vagas, das quais somente duas eram destinadas a mulheres.

Cada vez mais, o curso de geologia vem se ampliando pelas universidades brasileiras. Hoje, o Brasil possui ao todo 32 cursos de Geologia e, felizmente, com um número crescente de mulheres ocupando cerca de 50% das turmas. Foi somente no início da década de 1960 que o Brasil teve a sua primeira turma de geologia, sendo esta recebido pelo então presidente Juscelino Kubitschek durante a formatura. Na época, os cursos de geologia eram incentivados pela própria Petrobras, já que precisava-se de geólogos brasileiros para substituir os estrangeiros contratados pela empresa, os quais iniciaram a exploração no Brasil. Muitos engenheiros de minas foram treinados no exterior e na própria empresa para formar os quadros de exploracionistas.

A geologia é uma profissão, ainda hoje, muito desconhecida pelo grande público, mas fundamental para o levantamento de riquezas minerais do país como petróleo, minerais metálicos e não metálicos, tanto em terra quanto no mar, inclui também as energias renováveis pelo conhecimento dos ciclos de vento, chuvas , marés, ondas, etc. Esta é uma profissão que tem o conhecimento do clima do planeta ao longo da história da Terra e que é fundamental estar presente em posições governamentais para auxílio na tomada de melhores decisões, inclusive nas questões de mudanças climáticas, ocupação urbana, proteção costeira, etc.

Aprix Journal — Durante a sua trajetória, você teve uma importante participação na exploração do pré-sal. Qual foi o seu papel neste trabalho? E de modo geral, como foi essa experiência? Quais os principais desafios deste trabalho?

Sylvia Anjos — A exploração do pré-sal foi a continuação da busca pelo petróleo no Brasil, iniciada com a criação da Petrobras. A missão era levantar o potencial petrolífero do país e buscar inicialmente a tão sonhada auto-suficiência, a qual foi atingida em 2006. Após o trabalho de campo que realizei no início da carreira, passei cerca de 20 anos desenvolvendo pesquisas no Cenpes (Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação Leopoldo Américo Miguez de Mello) para a exploração e desenvolvimento da produção. Assim, cheguei à exploração em 2005, quando em seguida se havia iniciado a perfuração do difícil primeiro poço do pré-sal na Bacia de Santos. Esse poço foi um desafio que durou mais de um ano de perfuração. Havia muitas incertezas geológicas e problemas de perfuração, mas o resultado foi a comprovação do sistema petrolífero e que direcionou para o poço Tupi, descobridor do super gigante Campo de Lula.

Até chegarmos à descoberta do pré-sal houve muito trabalho que levou muitos anos e foi feito pelas equipes técnicas do portfólio, pelos colegas da interpretação exploratória da Bacia de Santos e múltiplas contribuições técnicas das equipes do CENPES . Na ocasião, a produção de petróleo da Petrobras provinha em mais de 90% da exploração de rochas siliciclásticas (Turbiditos da Bacia de Campos principalmente). Então, com a descoberta de Tupi em rochas carbonáticas, iniciou-se uma grande mudança. Houve a necessidade de se resolver as múltiplas incertezas e conhecer estas rochas carbonáticas microbiais que ainda eram desconhecidas. Foi uma verdadeira revolução na empresa e na indústria de petróleo ! Um grande motivador. Foi como ter um bebê em casa trazendo muita energia e muitos desafios para crescer. Foi um momento em que pude contribuir para a mudança de mind set das equipes de alto desempenho antes focada nos turbiditos e agora direcionadas para o pré-sal. Houve um grande desenvolvimento técnico e tecnológico e capacitação das equipes com muito estudo e muitas discussões técnicas e a busca por análogos em vários lugares do mundo, auxiliou tremendamente para que montássemos o quebra-cabeça resultando no acelerado conhecimento do pré-sal. Hoje, um pouco mais de uma década depois, o pré-sal já é responsável por 73% da produção de petróleo no Brasil.

Aprix Journal — Quando se começa a investigar a possibilidade de explorar uma região, sabe-se que é necessário realizar uma análise prévia da área. Então, que tipo de estudos são necessários realizar antes que se possa dar início à exploração? E quais são os principais indícios de que se encontrará petróleo em uma região?

Sylvia Anjos — Para que o Petróleo ocorra em acumulações significativas e forme campos de petróleo, é necessário uma série de pré-requisitos, tais como ter uma rocha geradora. Ou seja, uma rocha rica em matéria orgânica. Quando esta é soterrada, há um aumento de temperatura (maturação) e a matéria orgânica se transforma em petróleo. Este petróleo, por ser mais leve que a água, migra para as zonas superiores (migração) e se acumula nos poros de rochas porosas (reservatório)e forma um campo se acima deste reservatório houver uma rocha impermeável (selo), que aprisione este petróleo no reservatório. O selo impedirá que o petróleo continue subindo e chegue à superfície ou ao fundo do mar , onde se biodegradaria por bactérias. No caso, os 2 mil metros de sal formaram um selo perfeito, permitindo que o óleo gerado e migrado para as rochas carbonáticas pudesse ser acumulado, aprisionados e formasse estes campos supergigantes do pré sal.

Cabe aos geólogos, então, buscar locais onde estas condições são atendidas concomitantemente. Para isso, utilizam-se dos métodos geofísicos para interpretar imagens que representem toda a subsuperfície. Além disso, é necessário ousadia, criatividade e conhecimento da evolução da Terra para buscar e detectar novas áreas prospectáveis e novas formas de ocorrência do petróleo. Dizemos sempre que o petróleo se acha primeiro na cabeça do geólogo, pois se precisa ter um conhecimento geológico aprofundado para buscar essas novas descobertas. Por exemplo, no caso do pré-sal, muitos geólogos e muitas empresas consideravam modelos geológicos que abaixo do sal não haveria reservatórios e sim rochas “duras”, sem capacidade de armazenamento. Porém, os geólogos da Petrobras vislumbraram o potencial e coube à alta direção da empresa tomar a decisão de investir e acreditar neles.

Aprix Journal — O Brasil se encontra entre os 15 países no mundo com maiores reservas de petróleo. Qual característica geológica presente no nosso país que justifica tamanha abundância?

Sylvia Anjos — É sempre bom lembrar que se hoje temos estas reservas é porque a Petrobras investiu em conhecer o potencial brasileiro mesmo na época em que o petróleo era barato. Quando entrei na empresa, a literatura mundial dizia que bacias do tipo da bacia de Campos e de Santos tinham um potencial muito baixo de ocorrência de petróleo. Coube à Petrobras provar o contrário.

Para isso, houve um imenso esforço de capacitação dos geólogos brasileiros, que desde a fundação da empresa tinham em mente o desafio de avaliar o potencial petrolífero do país e atingir a tão sonhada autossuficiência em petróleo e independência energética do Brasil. Feitas as descobertas, a grande capacitação e desenvolvimento tecnológico da engenharia permitiu a difícil produção em águas profundas. Descobrir e produzir: Assim se gera riqueza. E os prêmios da OTC, o “Oscar” da indústria petrolífera offshore é o reconhecimento ao grande trabalho da nossa engenharia.

O grande diferencial, então, foi justamente termos uma empresa que investiu tecnicamente em seus profissionais para avaliar o potencial do país, que teve uma visão estratégica com objetivos claros e ambiciosos. Isso permitiu que fôssemos os primeiros a descobrir petróleo nos turbiditos da Bacia de Campos. Tal modelo passou a ser buscado em várias bacias do mundo e só 10 anos depois foram encontrados os primeiros semelhantes na África. O mesmo pioneirismo aconteceu com o modelo do pré-sal, que passou a ser buscado mundo afora.

Aprix Journal — O fato de se ter um grande reserva de petróleo significa, necessariamente, que o país é autossuficiente em relação à matéria prima?

Sylvia Anjos — Sim, pois denominamos reservas aquelas acumulações que são economicamente viáveis. Uma vez produzida, há autossuficiência.

Aprix Journal — Além da sua experiência dentro da Petrobras, você também atua como diretora da Associação Brasileira de Geólogos de Petróleo (ABGP). Que tipo de projetos e iniciativas a ABGP promove? E qual a importância de associações como essa?

Sylvia Anjos —O trabalho na Associação é um trabalho voluntário que faço como uma forma de retribuir à sociedade o tanto que recebemos de nossas empresas em termos de capacitação e conhecimento. Fui presidente por dois períodos e hoje continuo como diretora executiva, em apoio ao novo presidente.

A Associação tem como objetivo principal congregar os profissionais para compartilhar conhecimentos e desenvolvimentos tecnológicos que permitam a indústria crescer como um todo. Tem como propósito também apoiar estudantes de geologia a conhecer mais sobre a área do petróleo. Além disso, buscamos divulgar as geociências para o público em geral, principalmente, para crianças, estudantes e professores de escolas. Com isso, queremos desmistificar a geologia e trazer novos profissionais para a área.

A ABGP atua em colaboração com a UFRJ no programa Geólogos do Amanhã, com os professores Ismar de Souza Carvalho e Leonardo Borghi. Também colabora com o projeto Casa da Pedra, com o propósito de trazer estudantes de geologia para conhecer as rochas e fósseis do Cariri, que tem uma idade semelhante aos depósitos do pré-sal.

Aprix Journal — Por fim, como você vê o espaço das mulheres no setor de O&G, tradicionalmente dominado por homens? E como foi a sua experiência?

Sylvia Anjos — Na geologia já havia inicialmente uma barreira na entrada. Das 80 vagas oferecidas pela Petrobras para as geociências, somente 2 seriam destinadas às mulheres. A alegação era que as instalações das plataformas não permitiam. Não havia banheiro para as mulheres nelas, por exemplo. Ao entrar na empresa, depois de muito insistir, meu chefe autorizou que eu e minha colega embarcássemos em uma plataforma offshore. Porém, precisávamos voltar de helicóptero para dormir no hotel. Para ele foi também uma grande ousadia, pois mesmo estando na região de produção da Bahia era preciso pedir autorização à diretoria no Rio de Janeiro. O ponto positivo foi que, a partir desta conquista, as limitações de vagas para mulheres foram sendo reduzidas e em poucos anos não houve mais limitação.

Hoje, as mulheres ocupam ainda um pequeno percentual no setor. Somos menos de 20%!! Porém, o número está crescendo. Contudo, ainda vemos o chamado “teto de vidro”, que tem segurado a chegada feminina aos cargos da alta liderança.

Eu faço parte do Comitê de Diversidade do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás), que tem desenvolvido programas de mentoria para ajudar mulheres profissionais nesta caminhada. Além disso, participo de vários grupos e dou palestras para conscientizar homens e mulheres desta situação, da questão dos vieses inconscientes, da necessidade de network etc. A ABGP, inclusive, implantou este ano o prêmio HEforSHE e SHEforSHE, inspirado na iniciativa da ONU Mulheres, para reconhecer aqueles e aquelas que ao longo de suas carreiras tomaram ações para o desenvolvimento da carreira das mulheres.

 


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